D e s c r i ç ã o   d o   G é n e r o  S p h a g n u m

 

 

T a x o n o m i a

 

Os briófitos (musgos e hepáticas) são um grupo de plantas de sucesso, uma vez que evoluíram para uma grande variedade de formas, incluindo mais de 24.000 espécies. Apesar disto, sendo pequenas e muitas vezes efémeras estas ocorrem como elementos da vegetação apenas em condições muito especiais.

A divisão briófita possui 660 géneros que se subdividem em 3 grupos morfologicamente distintos e tratados ao nível da classe: Sphagnopsida, Andreopsida, e Bryopsida. O Sphagnum spp. pertence à classe Sphagnopsida, com uma única ordem – Sphagnales e possuí um só género – Sphagnum. Este género não parece ter qualquer relação com outros briófitos e não existe qualquer evidência fóssil que relacione esta planta com os restantes briófitos (Daniels & Eddy, 1985).

O actual número de espécies dentro deste género depende da interpretação do conceito de “espécie”, pois diferentes autoridades possuem diferentes conceitos acerca da extensão das diferenças que podem ser encontradas dentro da mesma espécie (Daniels & Eddy, 1985). Para dar uma ideia, cerca de 50 espécies são conhecidas embora segundo diversos autores estejam descritas mais de 300.

O Sphagnum é um briófito inconfundível, basta ter visto uma espécie ou examinado ao microscópio algum filídeo para se poder dizer se é ou não um Sphagnum. Distingue-se dos outros musgos pelo agrupamento dos seus ramos em fascículos.

 

 

Tapete de Sphagnum. Serra de Sta. Bárbara. Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

E v o l u ç ã o

 

Geologicamente falando, o Sphagnum é relativamente jovem, com uma diversidade de espécies que aumentou durante o Terciário e o Pleistoceno, isto sugere que evoluiu ao lado de plantas vasculares com as quais competiram (Breemen, 1995). As plantas da classe Sphagnopsida são conhecidas desde o período Permiano, este período durou até 290 a 248 milhões de anos atrás e foi o último período da Era Paleozóico (Alexander et al. 1998).

 

M o r f o l o g i a

 

O Sphagnum difere dos restantes briófitos pela forma de organização dos seus ramos, estes estão agrupados em fascículos ao longo do caule. Cada fascículo é constituído por 2 ou mais ramos difusos e um ou mais ramos pendentes. O número e tipo de cada fascículo são pistas importantes para a identificação de uma espécie.

Os ramos mas jovens estão aglomerados no topo da planta formando a cabeça ou capítulo, à medida que o caule se alonga, os ramos vão formando fascículos. A forma do capítulo é uma ferramenta útil para separar algumas espécies, o capítulo pode ser hemisférico, arredondado ou plano. O capítulo plano tem frequentemente 5 raios de fascículos a sair do centro, condição definida como penta-raiado (five-rayed).

Existem dois tipos de folhas nos musgos. Folhas nos ramos dos fascículos, designadas folhas dos ramos. Estas podem ser organizadas livremente no ramo ou organizada em 5 filas distintas, uma condição designada penta-filados (five-ranked).

As folhas do caule encontram-se ao longo do caule principal. Estas são mais úteis que as folhas dos ramos na identificação de espécies. Poderá ser necessário remover o capítulo e alguns ramos para ver as folhas do caule. Estas têm normalmente uma forma diferente das dos ramos.

 

C i c l o  d e  v i d a

 

O género Sphagnum, tal como todos os briófitos, tem uma fase haploíde dominante (gametófito) e uma fase diplóide muito curta (McQueen, 1990).

A planta de Sphagnum constitui o gametófito porque possui órgãos sexuais microscópicos que produzem gâmetas. Os ramos que produzem os gâmetas masculinos, em estruturas chamadas anterídeos, são encontrados perto do capítulo, estes ramos tem frequentemente uma pigmentação diferente do resto da planta, normalmente castanha ou vermelha. O anterídeo apenas pode ser observado ao microscópio. O arquegónio por sua vez é extremamente pequeno e por isso quase impossível de ser encontrado. Localizam-se na base de ramos difusos perto do capítulo.

Em algumas espécies as estruturas masculinas e femininas encontram-se na mesma planta, espécies monóicas, enquanto em outras espécies estas estruturas se encontram em plantas separadas sendo definidas como espécies dióicas.

O ovo fertilizado desenvolve-se numa estrutura produtora de esporos numa fase posterior do ciclo reprodutivo. Este esporófito inclui uma cápsula hemisférica e castanha escura, quase preta. As cápsulas têm apenas alguns milímetros de diâmetro e surgem acima da planta sob um talo verde designado de pseudopódio. As cápsulas quando secas explodem, espalhando os esporos para fora da planta. Cada esporo pode germinar produzindo uma planta (gametófito).

A reprodução sexual é dependente da espécie, algumas reproduzem-se com menos frequência que outras. Quando ocorre produção de cápsulas estas são visíveis no Verão.

As características ambientais condicionam este comportamento reprodutivo (McQueen, 1990). Este autor refere que espécies em condições mais ricas em nutrientes produzem esporófitos mais cedo (Junho) que as que se desenvolvem em locais mais secos e mais pobres em nutrientes.

O meio de propagação mais comum do género Sphagnum é a reprodução vegetativa. Neste tipo de reprodução a porção superior da planta produz ramos que eventualmente evoluem para caule com capítulo, fascículos e ramos. Depois de várias estações de crescimento, as porções mais velhas do caule detioram-se e dão origem a novas plantas. Esta forma reprodutiva é extremamente importante para grande parte das espécies uma vez que nem sempre ocorre o processo reprodutivo.

A reprodução vegetativa também ocorrer também pelo crescimento de um fragmento de uma planta adulta.

De acordo com McQueen (1990) a reprodução vegetativa pode ser responsável pela dispersão à distância. De facto não de conhece que o Sphagnum seja fonte de alimento para qualquer espécie mas algumas aves podem usá-las para ninhos. Podem ser acidentalmente transportados por estas, ou por outros animais.

 

P r o p r i e d a d e s    O r g a n o q u í m i c a s 

 

A planta de Sphagnum vivo consiste essencialmente de polissacarideos constituídos por uma glucose e unidades de ácido galacturónico, açúcares, em que a cadeia de CH2OH no C6 foi substituído por grupo ácido carboxilico que dá ao Sphagnum a sua alta capacidade de troca de catiões e é amplamente responsável pelo seu carácter ácido (Breemen, 1995). Possui ácidos muito estáveis distribuídos numa rede de polímeros polifenólicos que está provavelmente lincada às paredes das células dos biopolímeros. Esta característica confere aos tecidos do Sphagnum carácter lenhoso, sem lhe conferir a estrutura tipicamente forte do tecido lenhoso (Breemen, 1995). Assim, apesar da sua carência de lenhina e o seu alto teor em polissacarídeos, “quase nada come Sphagnum” (Breemen, 1995).

 

E c o l o g i a

 

São plantas típicas de zonas encharcadas. Esta condição é geralmente conseguida em locais com uma precipitação relativamente elevada e distribuída por todo o ano, sem que sejam frequentes os períodos em que a evaporação exceda a precipitação (Clymo & Hayward, 1982).

 

Tapete de Sphagnum. Sanguinhal. Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

É condição básica para o desenvolvimento destas plantas que as águas sejam tranquilas puras e frias; crescem bem em águas ácidas, no entanto morrem rapidamente em águas alcalinas e salinas, figuram por isso entre as plantas mais calcífugas e menos halófitas (Casares-Gil, 1925).

Estes musgos possuem duas características que os tornam particularmente bem equipados para crescer em mires: uma grande capacidade de absorver e reter água e a sua elevada capacidade de troca catiónica (CTC).

 

 

 

Absorção e retenção de água

 

As plantas deste género têm uma elevada capacidade de armazenar água (podem suportar até 20 vezes o seu peso seco) devido à estrutura peculiar da sua folha (Rieley & Page, 1990). Em secção transversal, um corte duma folha indica dois tipos de células, pequenas células clorofilinas (fotossintéticas, importantes para a fotossintese e respiração) e células hialinas (largas e incolores) com poros nas paredes, através dos quais a água se move (Wells & Hirvonen, 1988). McQueen (1990) refere que são os ramos pendentes os que armazenam mais água.

Corte transversal de uma folha de Sphagnum (*40).

A – Célula Hialina, onde se acumula a grande quantidade de água que este briófito tem capacidade de reter: B – Célula Fotossintética.

Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

 

 

Esta característica de absorção e retenção é importante para a planta uma vez que esta não possui raízes para absorver solutos do solo, ou tecidos condutores internos para o transporte de água (Daniels & Eddy, 1985). A água é absorvida directamente por via de uma rede de espaços capilares existentes na planta (Rieley & Page, 1990). Esta capacidade de retenção de água, por parte do Sphagnum vivo que cresce na superfície da turfeira, acrescentando ao movimento da água por capilaridade dentro da turfa, assegura que a toalha de água seja mantida um pouco abaixo da superfície ou à superfície da turfeira durante todo a ano.

As espécies de Sphagnum spp. observadas acima do nível da água (quando passamos de hollows para hummocks) tem uma crescente capacidade para conduzir água por acção capilar (Breemen, 1995).

As células hialinas representam cerca de 80% do volume das plantas (Breemen, 1995). O mesmo autor refere que cerca de 98% do tapete de Sphagnum vivo é espaço poroso, 10 a 20% da porosidade está nas células hialinas e o restante está no exterior da planta. A porosidade diminui com a profundidade devido essencialmente à compressão.

 

 

 

Capacidade de troca catiónica

 

Além da sua capacidade de absorver e reter água as plantas do género Sphagnum spp. podem acidificar o habitat pela troca de iões hidrogénio (H+) por outros iões tais como potássio, sódio, cálcio e magnésio (k+, Na+, Ca2+ e Mg2+ respectivamente) (McQueen, 1990). As diferentes espécies de Sphagnum spp. são capazes de se desenvolver particularmente bem em situações ombrotróficas como resultado da sua relativamente alta capacidade de troca catiónica (Rieley & Page, 1990).

Na maioria dos ecossistemas, o pH encontra-se próximo da neutralidade, no entanto em zonas húmidas dominadas por Sphagnum, o pH do meio é bastante ácido, por vezes atinge valores abaixo dos 3. A sua capacidade para acidificar o meio tem uma série de vantagens, em primeiro lugar as plantas usam esta troca como meio de obter nutrientes para o seu crescimento, e que são em muito pequena quantidade no seu meio (McQueen, 1990). Em segundo lugar, criando um habitat ácido, o Sphagnum “cria” um ambiente ideal para si próprio onde a competição com outras plantas é muito pequena (McQueen, 1990), pois a maioria das plantas vasculares não tolera níveis baixos de nutrientes ou ambientes ácidos e húmidos.

Os locais de troca são provavelmente o grupo carboxil (COO-) em polímeros de cadeias longas contendo ácidos urónicos (Clymo & Hayward, 1982). Segundo McQueen (1990), a molécula responsável pela troca catiónica é o ácido galacturónico que se situa nas paredes das células do musgo. Este ácido consiste de uma molécula de galactose onde o grupo hidroxil (CH2OH) é oxidado para grupo carboxil (COOH), o hidrogénio do grupo carboxil é fracamente retido, daí estar disponível para troca. Ainda de acordo com Clymo & Hayward (1982), a capacidade do Sphagnum de manter um ambiente ácido, mesmo depois de largos períodos de precipitação, depende do crescimento contínuo deste, produzindo novos locais de troca.

Os ácidos urónicos podem constituir até 30% da matéria seca em espécies típicas de hummocks e cerca de 10% nas típicas de hollows (Clymo & Hayward, 1982). Isto leva-nos a pensar que a capacidade de troca catiónica da mesma espécie ou de espécies diferentes varia em diferentes habitat.

Clymo & Hayward (1982) apresenta o “modelo de sistema troca de Donnan” que combina a produção anual (MS) com a rede de fornecimento de água (precipitação-evaporação), este refere que os valores de pH obtidos são resultado da influência de vários factores que os designa como os principais causadores de acidez variando no tempo e espaço. Em primeiro lugar temos o facto de que o fornecimento de água não é uniformemente distribuído ao longo do ano, e as fases em que a evaporação excede a precipitação, coincide com a época de maior crescimento, estes dois pontos leva a prever uma maior acidez no Verão. Em segundo lugar, as espécies típicas de hummocks, tem uma maior capacidade de troca podendo assim corresponder a condições mais ácidas. Terceiro, e último ponto, a quantidade de água em torno do hummock é muito menor do que a se poderá verificar em hollows ou em pools daí que o volume de água que as plantas possam usar para equilibrar o pH é bastante menor.

O fenómeno associado à chuva ácida leva a acréscimos adicionais de ácidos, que ao contrário do que poderia ser esperado não favorece o crescimento do Sphagnum (Clymo & Hayward, 1982), existem mesmo referências do desaparecimento de vastas áreas desta planta aonde este fenómeno é frequente e intenso. Os sulfatos contém aniões, particularmente o bissulfato, HSO3- que prejudicam o Sphagnum.

 

T u r f e i r a s

 

As plantas do género Sphagnum são espécies estruturantes de turfeiras.

Turfeira é um ecossistema em que o nível de água está perto, acima, ou à superfície (Wells & Zoltai, 1985) e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos indicadores de solos mal drenados, desenvolvendo vegetação hidrófitica e verificam-se vários tipos de actividade biológica adaptados a ambientes “húmidos” (Weels et al., 1987). Devido a um conjunto de propriedades, promove a formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (McQueen, 1990).

Uma turfeira de Sphagnum (peatbog) é uma turfeira que se formou a partir da acumulação de partes mortas de Sphagnum. Nestas turfeiras, os nutrientes são estritamente provenientes da precipitação (portanto com níveis muito baixos de nutrientes), são normalmente caracterizados por um pH baixo, de 4 ou menos. Geralmente o nível da água está à sua superfície ou apenas um pouco abaixo desta. A profundidade dos peatbogs pode atingir 10 m (Wells & Hirvonen,1988), embora existam relatos de turfeiras de 12 m (Irish Peatland Conservation Council, 1996b). Na ilha Terceira a profundidade máxima encontrada foi de cerca de 6 m.

 

 

D i s t r i b u i ç ã o   n o   m u n d o

 

As comunidades dominadas por Sphagnum (turfeiras) estão extremamente difundidas pelo mundo, excepto na Antárctica. Cientistas estimaram que existem cerca de 386 a 409 milhões de hectares deste tipo de comunidade espalhados por 5 continentes (Irish Peatland Conservation Council, 1996b). A mesma fonte diz que a sua área representa cerca de 5-8% da superfície terrestre mas, estando a sua formação dependente de factores climáticos a maioria destas comunidades limita-se à zona temperada do Hemisfério Norte.

 

Distribuição de turfeiras no mundo. Retirado de Environment and Heritage Services, in: http://www.peatlandsni.gov.uk/formation/global.htm

 

Estas comunidades formadoras de turfa, em alguns dos países mais industrializados do mundo têm (desde o séc. XVI até à presente data), sofrido vastas alterações (Irish Peatland Conservation Council, 1996a). O seu desaparecimento ocorre à medida que a tecnologia se desenvolve e o país cresce em termos económicos. Em muitos dos casos a extracção de turfa ajudou a transformar as economias de algumas regiões e mesmo de alguns países. No entanto, em termos ambientais, os custos são muito elevados e se não forem feitos esforços de conservação, estas poderão, a curto prazo, desaparecer para sempre. Para alguns países isto pode ser demasiado tarde. Por exemplo, todos os bogs da Holanda e da Polónia estão perdidos (Irish Peatland Conservation Council, 1996c). A Suíça e a Alemanha possuem apenas 500 ha, enquanto a Inglaterra perdeu já cerca de 90% das suas turfeiras (Irish Peatland Conservation Council, 1996c).


 

Superfície ocupada por turfeira, em alguns dos países (adaptado de Irish Peatland Conservation Council 1996c).

 

Países

Área

 

Em (ha)

(%) Em relação ao país

Finlândia

10 000

33.500

Canadá

129 500 000

18.400

Irlanda

1 178 798

17.200

Suécia

1 500 000

17.100

Indonésia

700 000

13.700

Escócia

821 381

10.400

Islândia

1 000 000

9.700

Noruega

3 000 000

9.400

Malásia

2 360 000

7.200

Holanda

250 000

6.000

Alemanha

1 618 000

4.600

Polónia

1 500 000

4.400

Cuba

200 000

3.900

USA

7 510 000

3.300

Áustria

22 000

2.800

Dinamarca

60 000

2.800

Hungria

100 000

1.100

Nova Zelândia

166 000

0.600

Bélgica

18 000

0.600

Uruguai

100 000

0.500

Japão

200 000

0.500

China

3 480 000

0.400

Itália

60 000

0.400

Israel

5 000

0.250

França

120 000

0.200

Grécia

5 000

0.040

Roménia

6 000

0.030

Argentina

45 000

0.016

Espanha

6 000

0.012

Austrália

15 000

0.002

Bulgária

1 000

0.001

 


V a l o r e s   e   F u n ç õ e s

 

Biodiversidade

 

 

Turfeira de Transição. Zona da Rocha do Juncal. Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

As formações de Sphagnum são importantes, em primeiro lugar porque são ecossistemas únicos, onde uma grande variedade de animais e plantas conseguiu-se adaptar. De realçar que muitas das espécies dos bogs são típicas destes habitat, sendo algumas raras. Foram encontradas nas turfeiras estudadas (na ilha Terceira) espécies protegidas como a Culcita macrocarpa (Directiva dos Habitat e Convenção de Berna), Isoetes azorica (Directiva dos Habitat e Convenção de Berna), Erica azorica (Directiva dos Habitat e Convenção de Berna), Frangula azorica (Directiva dos Habitat) e Angelica ligniscens (Directiva dos Habitat). Isto para além de elas próprias serem habitat protegido pela Directiva Habitat DL nº 49/2005 de 24 de Fevereiro (Jornal Oficial das Comunidades, 2005).

 

Ammi trifoliatum, uma espécie protegida dependente dos nutrientes cedidos pelos ecossistemas de turfeiras e ocorrendo com frequência nas margens destes sistemas (ilha de S. Jorge). Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

 

 

 

 

Chaerophyllum azoricum, uma espécie protegida dependente dos nutrientes cedidos pelos ecossistemas de turfeiras e ocorrendo com frequência nas margens destes sistemas (ilha de S. Jorge). Foto Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

 

 

 

 

Ciclo do Carbono

 

As formações acumuladoras de turfa de Sphagnum são muito importantes no ciclo do Carbono. As turfeiras e a turfa contêm um enorme reservatório de carbono orgânico. Recentes preocupações sobre a combustão de energias fósseis e o consequente efeito de estufa, causado pela libertação de dióxido de carbono para a atmosfera, levaram a um estudo de quantidades de carbono que é retido durante o seu ciclo (Wells & Hirvonen, 1988). Por exemplo, no Canadá estima-se que cerca de 2% (2 biliões de toneladas) do total de carbono armazenado, encontra-se em turfeiras (Wells & Hirvonen, 1988).

 

  

 

Perfil de uma turfeira de Sphagnum onde é visível a acumulação de consideráveis quantidades de Carbono Orgânico. Zona do Algar do Carvão (turfeira já destruída por arroteia). Foto de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

 

Quebrando o imperme, o nível da água baixa (drenagem) acelerando o processo de decomposição. Como resultado, o carbono que estava armazenado na turfeira é libertado para a atmosfera sob a forma de dióxido de carbono (Keys, 1992). Este composto é o principal responsável pelo aquecimento global do planeta (efeito de estufa), contribuindo a destruição das turfeiras para o agravamento deste fenómeno. Na destruição duma turfeira outros factores podem contribuir para a perda de carbono, tal como a perda da sua vegetação, considerando esta, fonte acumuladora de carbono (pela fotossíntese).

 

Fornecimento e regulação da água

 

No seu estado natural o tapete de Sphagnum influencia a hidrologia, essencialmente em termos de fornecimento de água e a sua regulação. Durante períodos de elevada precipitação, a quantidade de água armazenada na camada activa do ecossistema, aumenta substancialmente, esta água é libertada gradualmente durante os períodos de baixa precipitação. O resultado é a regulação do fluxo da água.

Num estudo feito na ilha das Flores por Azevedo & Ferreira (in press), estes concluem que o tapete de Sphagnum é importante na regulação do ciclo hídrico. Esta sua (do tapete de Sphagnum) intervenção no ciclo da água efectua-se a diversos níveis: (1) regula a infiltração, através de uma cedência gradual e contínua para os níveis inferiores da água que intercepta; (2) regula a escorrência superficial e subterrânea e, consequentemente dos caudais das nascentes; (3) regulando a escorrência superficial evita o aumento rápido dos caudais após os picos de precipitação; (4) regula a erosão dos solos; (5) regula o micro-clima insular, na medida em que proporciona uma evapotranspiração real muito elevada, contínua e com baixa variação anual.

 

A remoção do tapete de Sphagnum poderá dar origem, a curto prazo:

· A um aumento brusco da escorrência superficial, associado a grandes prejuízos.

· A acentuada remoção e erosão dos solos associado a uma descaracterização da paisagem.

· Uma importante diminuição no volume de água interceptada e retido na cobertura.

 

A longo prazo poderá provocar:

· Diminuição da recarga dos aquíferos.

· Alteração do regime de recarga que poderá evoluir de um regime aproximadamente constante ao longo do ano para um regime sazonal.

· Alteração das características químicas da água, até então de óptima qualidade, poderá evoluir para situações de contaminação.

· Alteração do micro-clima da ilha.

 

 

 

 

                              

Remoção do tapete de Sphagnum quer por arroteia directa (foto à esquerda, zona do Pico da Bagacina, ilha Terceira) quer por arroteia na área envolvente (foto da direita do Pico da Bagacina, ilha Terceira) promovendo a degradação lenta da turfeira e o desaparecimento da vegetação típica. Fotos de Cândida Mendes, GEVA, Arquivo Fotográfico do Herbário da Universidade dos Açores, AZU.

Papel “purificador” da água

 

O Sphagnum tem um importante papel de purificador no ciclo da água pois retém na sua estrutura todas as substâncias que são transportadas na mesma água, tais como iões metálicos, patogenes e outras substâncias tóxicas (Wells & Hirvone, 1988). Isto faz com que estes componentes possuam concentrações muito baixas na água que é libertada da turfeira. Esta capacidade natural de filtração encorajou diversos estudos sobre o potencial da turfeira no tratamento de águas poluídas, estes estudos incidem não só na turfeira no seu meio natural, mas também em turfa removida e a sua implantação em sistemas artificiais (Wells & Hirvonen, 1988).

 

Reserva de informação

 

Os bogs (turfeiras de Sphagnum) representam uma riquíssima memória do passado, é vasta a informação neles contida (Irish Peatland Conservation Council, 1996c). Desta forma ajuda-nos a conhecer as pessoas, a cultura, a economia e o clima dos tempos pré-históricos.

 Encontram-se armas, utensílios, pólen e restos de plantas que se pode identificar, diversos factores que indicam o grau de perturbação provocada pelo homem na paisagem circundante. As turfeiras proporcionaram algumas das mais espectaculares descobertas da arqueologia inglesa, incluindo corpos extremamente bem preservados de alguns dos nossos ancestrais (Irish Peatland Conservation Council, 1996c). A mesma fonte refere que foram já encontrados cerca de 600 corpos nos bogs do norte da Europa, corpos esses que foram oferecidos como sacrifício ao Deus da fertilidade, preservados à cerca de 2000 anos.

 

Homem de Tollund foi descoberto em Bjeldskovdal em 1950. Viveu no Séc II ou III antes de Cristo. Tinha entre 30-40 anos quando morreu. O seu estado permitiu ainda identificar os alimentos que tinha no estômago. Retirado de:

http://www.mesh5.com/tension/febmarch/tollund1.htm

 

 

 

 

 

Durante os muitos milhares de anos em que ocorre a acumulação de turfa, muitos grãos de pólen e outros materiais foram depositados. A identificação destes pode dar informação sobre as comunidades de plantas existentes durante a sua deposição (Wells & Hirvonen, 1988). Extraindo grãos de pólen de diferentes camadas da turfeira poderá ter-se uma ideia do tipo de vegetação existente em diferentes épocas e compreender um pouco acerca da sua evolução (Irish Peatland Conservation Council, 1990).

 

Outras utilizações da turfa de Sphagnum

 

O uso de turfeiras para interesse do homem data de alguns milénios. Antes da explosão comercial, a turfa era usada como combustível doméstico e os campos drenados eram usados para produção agrícola (Ross, 1997). A expansão comercial e urbana iniciada na idade média criou maiores exigências de combustível, esta necessidade, em conjunto com o facto de haver carência de madeiras levou a um incentivo para desenvolver técnicas de exploração comercial de turfa (Ross, 1997).

As turfeiras e a turfa podem ser usadas para uma grande diversidade de objectivos, mas estes geralmente requerem a alteração do seu estado natural (Keys, 1992).

A agricultura usa métodos não extractivos, tal como acontece com a florestação, em que se usa a drenagem parcial para facilitar as operações de florestação. Estes métodos não extractivos consistem no uso de estruturas de controlo da água, técnicas que são muito usadas no Canadá (Keys, 1992).

Actualmente a extracção de turfa ocorre em massa pois esta representa um óptimo substrato para actividades como horticultura (Wells & Hirvonen, 1988). Em 1984 cerca de 2600 ha de turfeira, no Canadá foram usadas para extracção de turfa por 14 empresas (Wells & Hirvonen, 1988).

Numa escala global, o desenvolvimento de turfeiras para extracção de turfa pode ser dividido em duas grandes categorias: (1) turfa para combustível e (2) turfa para uso hortícola e outras possíveis utilizações (Keys, 1992). O uso de turfa como fonte de combustível é bastante extensivo em países como Finlândia, Irlanda e todas as repúblicas que formavam a ex - URSS. Para obter turfa para fins hortícolas de boa qualidade esta deve ser constituída essencialmente à base de Sphagnum (Keys, 1992). De realçar que a extracção para fins hortícolas é bastante superior à quantidade usada para combustíveis.

Nos Açores o Sphagnum era utilizado para fazer almofadas. Era também usado na cultura do Ananás, como substrato.

 

 

 

 

B i b l i o g r a f i a  

 

 

Alexander, Chave; Henry Chang; Carl Tsai & Peggy Wu (1998). Sphagnopsida: Systematics

http://www.ucmp.berkeley.edu/permian/aupermian.html

 

Azevedo, J. M. M. & M. R. Portugal Ferreira, (in press). As Funções Hidrogeológicas da Cobertura Vegetal Endémica (Sphagnum) e os Impactos da sua Remoção (ilha das Flores, Açores). Manuscrito.

 

Breemen Nico van ( 1995 ). How Sphagnum bogs down other plants. Tree 10 (7): 270-275.

 

Casares-Gil, A. (1925). Los Esfagnales de la Península Ibérica. Memórias de la Real Sociedade Española de História Natural 13(1): 5-81.

 

Clymo, R. S. & P. M Hayward. (1982). The Ecology of Sphagnum. In: A. J. E Smith, (Ed.). Bryophyte Ecology pp: 229-289. Chapman and Hall. London

 

Daniels, R. E. & A. Eddy (1985). Handbook of European Sphagna. Institute of Terrestrial Ecology. Huntingdon.       

 

Jornal Oficial das Comunidades Decreto-Lei n.º 49/2005 de 24 de Fevereiro.

 

Keys, David (1992). Canadian Peat Harvesting and the environment. Sustaining Wetlands, 3: 1-14. North American Wetlands Conservation Council (Canada).

 

  Irish Peatland Conservation Council (1990). The Wild Beauty of Bogs Exhibition Guide Book. Wildlife Service/Office of Public Works.

 

Irish Peatland Conservation Council (1996a). Facts About Bogs - Bogs, Their plants and animals.. http:/aoife.indigo.ie/~ipcc/bogflorafauna.html

 

Irish Peatland Conservation Council (1996b). Facts About Bogs - How do Bogs Form ? http:/aoife.indigo.ie/~ipcc/bogsform.html

Irish Peatland Conservation Council (1996c). Facts About Bogs - Why are Bogs Important. http:/aoife.indigo.ie/~bogsimportant.html

 

McQueen, Cyrus B. (1990). Field Guide to the Peat Mosses of Boreal North America. University Press of New England. London.

 

Rieley, J. O. & S. E. Page (1990). Ecology of Plant Communities - A Phytosociological Account of British Vegetation. Logman Sc. & Techn. London.

 

Ross, Steve (1997). Raised Bog Restoration to Peat Producing Sphagnum Species: An Overview of European Approches.

         http:/www.soils.umn.edu:8003/w5015/Ross.htm

 

Weels, E. D., G.D. Adams & A.N. Boissonneau (1987). The Canadian Wetland Classification System. Canadian Wildlife Service - Ecological Land Classification Series, 21: 1-18.

 

Wells, E. D. & Hirvonen (1988). Wetlands of Atlantic Canada. National Wetlands Working Group. Canada Committee on Ecological Land Classification. Polyscience Publicatin Inc. Canada.

 

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Como referenciar este trabalho:

Dias E. & Mendes C.(2005). Ecologia de algumas espécies de Sphagnum da ilha Terceira. www.angra.uac.pt\GEVA\

 

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